A Bain & Company projeta que a inteligência artificial pode movimentar cerca de US$ 4,7 trilhões em lucros corporativos entre 2025 e 2035. Segundo a consultoria, esse impacto será mais que o triplo do que a internet gerou, e em metade do tempo que a rede mundial de computadores levou para se consolidar como força econômica.
O estudo, publicado na última terça-feira, 8, analisou 92 setores da economia global para identificar onde a transformação promovida pela IA deve ser mais profunda. A comparação direta com a internet serve como régua para dimensionar a magnitude do impacto esperado pela consultoria nos próximos dez anos.
Como a internet serviu de parâmetro
Entre 1995 e 2015, a internet colocou em jogo cerca de US$ 1,4 trilhão em lucros, segundo a Bain & Company. Desse total, US$ 1,1 trilhão veio do crescimento líquido do pool de lucros, impulsionado pela criação de novas categorias de negócio e por ganhos de produtividade, enquanto US$ 300 bilhões foram redistribuídos entre concorrentes existentes.
A consultoria aponta que o mecanismo central da internet foi a redução drástica do custo de distribuição, já que antes dela levar um produto ou serviço até o cliente exigia estrutura física como lojas e distribuidores. Esse efeito, no entanto, só transformou de forma significativa os setores em que a distribuição era o principal gargalo, caso de 41% dos setores analisados, incluindo viagens, notícias, serviços financeiros e software corporativo.
Por que a IA muda um gargalo diferente
O estudo aponta uma inversão de gargalo entre as duas tecnologias: o custo que a internet atacou foi o de levar um produto até o cliente, enquanto o alvo agora atingido pela IA é o custo de produzir esse produto ou serviço. Os pesquisadores dividem esse efeito em duas frentes: a IA cognitiva, que transforma trabalho baseado em conhecimento e expertise, como a análise de um exame por um radiologista ou a elaboração de um contrato por um advogado, e a IA incorporada, presente em robôs e veículos autônomos, que transforma produção física e operações, do trator que colhe uma safra à solda realizada por um robô industrial.
Segundo a consultoria, a maior parte da disrupção ocorre hoje no campo cognitivo, mas a IA incorporada avança rapidamente. É esse alcance ampliado que, segundo a Bain & Company, faz com que 71% dos setores analisados sejam estruturalmente transformados pela IA — uma proporção 1,7 vez maior do que a registrada com a internet.
Setores que a internet não alcançou
Segundo a Bain & Company, os ganhos de produtividade via IA podem representar US$ 1,1 trilhão do total projetado, ao substituir tarefas cognitivas em serviços profissionais e otimizar operações e logística em setores físicos. Esse mecanismo é apenas um dos caminhos pelos quais a consultoria estima que a tecnologia vai movimentar lucros globais.
A consultoria também destaca que setores como farmacêutica, biotecnologia, saúde, manufatura industrial e serviços profissionais foram deixados praticamente intactos pela internet, mas devem ser transformados pela IA. Isso porque, nesses casos, os desafios estavam na produção ou no desenvolvimento do produto, e não na distribuição, gargalo que a internet resolveu.
Olhar da Hédiz · Análise
Olhar da Hédiz
A projeção da Bain & Company sugere que setores até agora pouco tocados pela transformação digital, como saúde, manufatura e serviços profissionais, podem entrar em uma fase de mudança estrutural puxada pela IA. Para quem gere empresas nesses setores, isso pode significar repensar processos ligados à produção e à expertise interna, não apenas à distribuição ou ao atendimento digital. A escala do impacto ainda é uma estimativa de longo prazo, sem garantias de que se confirme no ritmo ou na intensidade descritos.



